29 de novembro de 2010

"O Céu pode esperar..."

Durante muito tempo pensei que não era assim, acreditava que a perfeição se pode cruzar com a realidade. Comprei uma escada muito alta, instalei-a no telhado, escolhi uma nuvem e iniciei uma missão impossível. Todos os dias vivi como podia, circunscrita à minha vida terrena que se ia esvaziando, enquanto à noite subia pela escada e me escondia em sonhos.

Deixei de viver neste mundo e estacionei numa realidade alternativa. A escada era imensa, íngreme e traiçoeira, dificílima de subir. E cada vez que era obrigada a descer à pressa ou me empurravam cá para baixo, vinha aos trambolhões, caía, magoava-me e, com a teimosia das crianças obstinadas voltava a subi-la.
Quanto tempo estive assim alienado do mundo? Alguns anos da minha vida, a tentar fazer equações com variáveis impossíveis de combinar. A escada levava a uma nuvem na qual não existia nada, apenas ar condensado, uma ilusão de algodão sem peso nem estrutura. Uma nuvem imensa feita de ilusões que pairava sobre o meu mundo, roubando-me o sol e ofuscando-me de todos os prazeres da vida. Vivia num labirinto, uma enorme armadilha que montara a mim próprio. Por causa da nuvem vivi situações intoleráveis, deixei-me enfraquecer, esperei e desesperei até não esperar mais nada…e perceber o quanto estava errada!

Há umas semanas apenas, como se despertasse de um transe, deitei fora a escada. Não quero subir para outra realidade quando me deixar levar outra vez por sentimentos perturbadores… Não quero ter de lutar para conquistar o afecto, nem o tempo, nem o amor de ninguém. Não quero correr atrás de nada. Quero uma pessoa ao meu lado, que me acompanhe num caminho feito de terra, com os pés bem assentes na realidade… (...)

Deitei fora a escada e voltei a ser quem era. E quando olho para o espelho, vejo outra vez aquela luz que tinha cá dentro a voltar, a brilhar com mais força. Afinal, nunca se tinha apagado. Estava cá, sempre esteve, precisava apenas de ser alimentada de uma energia real e não de sonhos e migalhas. Estou a voltar a mim. Devagar, com medo do mundo cá em baixo na terra, mas voltar agora é isso que importa.
Os amores platónicos servem para escrever livros, canções e os mais belos poemas de amor, mas tornam-se alérgicos à vida. Prefiro a terra, com cheiros, formas, cores e texturas. Prefiro sonhar com o mundo do que um mundo de sonhos. Prefiro estar cá em baixo, onde nasci, sem imaginar que tenho asas ou que o céu é para mim. Afinal, o céu pode esperar.

MRP

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